Crise de gota: o que faz o ácido subir e como prevenir

A dor começa à noite, sem aviso, em uma única articulação, muitas vezes na base do dedão do pé. Em poucas horas, a região fica vermelha, quente, inchada e tão sensível que o peso do lençol incomoda. É o quadro clássico de uma crise de gota, uma doença inflamatória causada pelo excesso de ácido úrico no corpo, e quem quer saber como baixar o ácido úrico costuma começar a pesquisa depois de uma experiência assim.

O que acontece em uma crise de gota

O ácido úrico é um produto da degradação das purinas, substâncias presentes nas células do corpo e em vários alimentos. Normalmente, ele se dissolve no sangue e é eliminado pelos rins. Quando a concentração fica alta por muito tempo, a partir de cerca de 6,8 miligramas por decilitro, que é o limite de solubilidade, podem se formar cristais de urato nas articulações.

O sistema imunológico reage a esses cristais como a um invasor.

A resposta inflamatória intensa produz a dor súbita, o calor e o inchaço característicos. Sem tratamento, o episódio costuma durar dias a poucas semanas e depois desaparece. Mas a doença tende a voltar, e crises repetidas podem causar danos nas articulações e depósitos visíveis, chamados tofos.

Nem toda pessoa com ácido úrico alto tem gota. Muitas apresentam valores elevados por anos sem sintomas, e o diagnóstico depende do quadro clínico e, em certos casos, da análise do líquido da articulação.

Por que o ácido úrico sobe

Dois mecanismos principais atuam. Em alguns casos, o corpo produz ácido úrico em excesso, por causa da genética, do metabolismo e de condições como a obesidade. Em outros, os rins eliminam menos do que deveriam, por doença renal, uso de certos medicamentos ou predisposição.

Na prática, a maioria das pessoas tem uma combinação dos dois. A alimentação contribui, mas explica apenas uma parte do problema, e é comum ouvir de pacientes que seguem dietas rígidas e mesmo assim têm crises. Isso não significa que a dieta não importe, e sim que o tratamento não depende só dela.

Entre os fatores que favorecem o aumento estão o excesso de peso, a síndrome metabólica, a hipertensão, o diabetes, a doença renal, a desidratação, o jejum prolongado e o uso de diuréticos e de algumas outras drogas. Homens e mulheres após a menopausa são mais afetados.

O que pode desencadear uma crise

As crises muitas vezes têm um gatilho identificável. O consumo excessivo de álcool, principalmente cerveja e destilados, é um dos mais conhecidos. Refeições com muita carne vermelha, vísceras e frutos do mar, em um churrasco ou em uma festa, também aparecem com frequência.

Bebidas e produtos adoçados com frutose, como refrigerantes e alguns sucos industrializados, elevam o ácido úrico, e a frutose é o açúcar que mais claramente eleva o ácido úrico. A desidratação, o jejum, o trauma na articulação, uma cirurgia, uma infecção e o início ou a mudança de medicamentos para baixar o ácido úrico podem precipitar o episódio.

Identificar o próprio padrão ajuda. Um diário de crises, com anotações do que foi comido, bebido e vivido nos dias anteriores, revela gatilhos individuais e orienta ajustes.

O que a alimentação pode e não pode fazer

A alimentação tem papel de apoio. Reduzir o álcool, limitar vísceras, carnes vermelhas em excesso e frutos do mar, evitar bebidas açucaradas, manter a hidratação ao longo do dia e perder peso de forma gradual, quando há excesso, são medidas que diminuem o ácido úrico e a frequência das crises.

Alguns alimentos costumam ser favorecidos. Laticínios desnatados, verduras, legumes, frutas e grãos integrais fazem parte de padrões alimentares associados a níveis mais baixos de ácido úrico. Vegetais ricos em purinas, como espinafre e leguminosas, não parecem aumentar o risco de crises da mesma forma que as carnes.

Mas é preciso ser realista.

Em muitas pessoas, a dieta reduz o ácido úrico em uma fração modesta, e quem tem níveis muito altos, crises frequentes ou tofos costuma precisar de medicamentos. Nenhuma alimentação substitui o tratamento quando ele é necessário, e prometer normalização do ácido úrico apenas com comida é enganoso.

Tratamento e acompanhamento médico

Durante a crise, o médico prescreve medicamentos para controlar a inflamação e a dor, escolhidos conforme o histórico de saúde, as outras doenças e os remédios que a pessoa usa. Automedicação, principalmente com anti-inflamatórios, é arriscada para quem tem problemas renais, gástricos ou cardiovasculares.

Para reduzir o ácido úrico a longo prazo, existem medicamentos específicos, indicados em casos de crises frequentes, doença renal, tofos ou níveis muito altos. O uso é contínuo, exige acompanhamento e ajustes de dose, e a interrupção por conta própria faz o ácido úrico voltar a subir.

O reumatologista é o especialista mais indicado. Em muitos casos, o acompanhamento inclui o clínico geral, o nefrologista e o nutricionista, para tratar também as condições associadas, como pressão alta, diabetes e colesterol.

Doenças que costumam acompanhar a gota

A gota raramente vem sozinha. Muitas pessoas que têm ácido úrico alto também apresentam pressão alta, diabetes, colesterol elevado, excesso de peso e doença renal, um conjunto conhecido como síndrome metabólica. Por isso, o cuidado com a gota inclui a avaliação do coração e dos rins.

Os rins merecem atenção especial.

Eles eliminam o ácido úrico e, ao mesmo tempo, podem ser prejudicados por ele, com formação de cálculos e lesão crônica. Alguns remédios usados para a pressão, como certos diuréticos, elevam o ácido úrico, e o médico pode ajustar o tratamento quando isso for possível.

Peso, jejum e exercício na gota

Perder peso ajuda a reduzir o ácido úrico, mas o ritmo conta. Dietas muito restritivas e jejuns prolongados podem elevar temporariamente o ácido úrico e desencadear crises, de modo que o emagrecimento deve ser gradual e acompanhado.

A atividade física regular é recomendada, com cuidado durante os episódios agudos, quando a articulação deve ficar em repouso. Exercícios intensos e desidratação podem ser gatilhos em algumas pessoas, e a hidratação ao longo do dia faz parte do controle.

Conversar com o médico e o nutricionista ajuda a organizar essas mudanças sem aumentar o risco de crises.

Como conversar com o médico sobre a gota

Levar uma lista de crises anteriores, com datas e articulações atingidas, os últimos exames de ácido úrico e de função renal e os remédios em uso torna a consulta mais produtiva. Perguntar sobre o plano para as próximas crises, sobre o que fazer em casa e quando procurar o pronto-socorro evita improvisos e reduz o sofrimento.

Cuidados práticos e sinais de alerta

Durante a crise, repouso da articulação, elevação do membro e compressas frias podem aliviar. Mas dor intensa, febre, calafrios e articulação muito quente e inchada merecem atenção, porque uma infecção da articulação pode ter sintomas parecidos e exige tratamento urgente.

Quem tem gota deve fazer exames periódicos de ácido úrico, função renal, glicemia e colesterol, porque a doença se associa a risco cardiovascular e renal. O acompanhamento regular é parte do cuidado, mesmo nos períodos sem crise.

Entender o que provoca uma crise de gota, como a alimentação entra na conta e quando o tratamento medicamentoso é necessário ajuda a sair da lógica de culpar o prato e a construir um cuidado mais completo, com menos dor e menos recaídas.